O volume de negócio das apostas desportivas tem aumentado significativamente e o dinheiro que é distribuído para o desporto, vem subindo em proporção, segundo os dados do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos.
No entanto, a grande maioria do bolo que é distribuído, pelas várias casas de apostas e por mais de 60 modalidades, vai para o futebol, sendo normal pelo volume que geram, mas há números que surpreendem e do ponto de vista dos dirigentes federativos deveriam ser alvo de uma revisão.
O Atleta conversou com Miguel Arrobas, presidente da Federação Portuguesa de Natação, que sendo a segunda entidade com mais atletas federados, apenas atrás do futebol, recebe cerce de 2.400 euros, num universo de 69 milhões. O dirigente apela a uma mudança, já que a divisão deste montante por cada filiado resume-se a cêntimos.
“Uma distribuição mais equitativa. Acho que todos os stakeholders concordam com este princípio. Se são provenientes de apostas desportivas deviam ser atribuídas ao desporto no geral segundo critérios claros e objetivos que pode passa por critérios como Numero de atletas filiados, Número de provas organizadas anualmente”, começou por referir Miguel Arrobas que vê maior potencial na sua modalidade.
“A Natação sendo uma federação multidisciplinar deveria potenciar por exemplo e desde logo o Polo Aquático como única modalidade coletiva no seio da Federação. A Natação Pura, sendo modalidade de “cronómetro” pode ser igualmente apetecível para o universo das apostas. O modelo existe e está implementado noutras geografias. Não é preciso inventar a roda..”
Miguel Arrobas chegou mesmo a dar um exemplo mais concreto:
“O dinheiro das apostas mundiais tende a consagrar determinado tipo de desportos, porque são mais populares em países ou que têm maior poder aquisitivo ou maior tradição em apostas. Gera-se um fenómeno em que o universo de apostas parece decalcar o mundo do interesse desportivo por parte dos adeptos ou praticantes, o que não é verdade. As apostas, na lógica dos apostadores é algo que lhes interessa, mas não forçosamente em detrimento de uma ou outra modalidade. Imaginemos que existia um processo equivalente relativamente a destinos paradisíacos. Todos apostavam nos destinos mais exóticos. E também os portugueses. Mas, na verdade, todos achamos e sabemos que temos praias fantásticas do Algarve ao Minho, passando por Madeira e açores. Ora, no modelo actual é como se o dinheiro das apostas fosse canalizado exclusivamente para um promotor turístico de destinos exóticos. Para a promoção do Algarve, Costa Alentejana, etc… não há verbas. Faz algum sentido?”
Em Portugal, federação como a de Desportos de Inverno, com pouca tradição, recebe 1.100 milhões de euros, devido ao volume de apostas efetuadas nessas modalidades. Porém, o problema da pobre distribuição afeta mais entidades que contribuem com maior número de filiados, na promoção do desporto e da atividade física, como são os exemplos das federações de atletismo e de ciclismo.
Domingos Castro, presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, também revelou o seu ponto de vista ao O Atleta.
“A alteração do modelo de financiamento pode passar pela introdução de novos mecanismos que garantam uma distribuição mais equilibrada dos recursos. Algumas propostas incluem: Criação de um Fundo de Desenvolvimento Desportivo – Uma parcela fixa das receitas das apostas desportivas poderia ser destinada a um fundo específico para apoiar modalidades menos representadas; Revisão Periódica dos Critérios de Distribuição – Implementar um sistema dinâmico que ajuste anualmente a redistribuição dos fundos conforme a popularidade e necessidades das diferentes modalidades; Introdução de um Mecanismo de Solidariedade – Federações que arrecadam maiores dividendos poderiam redistribuir parte dos seus ganhos para apoiar modalidades menos populares, garantindo um ecossistema desportivo mais sustentável; e a Criação de Parcerias com Casas de Apostas – Desenvolvimento de iniciativas conjuntas para promover modalidades emergentes, criando eventos especiais e promoções que incentivem as apostas em diversas modalidades.”
Para além destes pontos que procuram a equidade na distribuição do dinheiro, o dirigente vai mais além, apresentando ainda mais propostas, as quais transmitiu ao O Atleta:
A projeção de uma modalidade nas casas de apostas depende essencialmente do interesse do público e da atratividade das competições. Algumas estratégias incluem:
- Promoção e Profissionalização dos Eventos: Melhorar a estrutura e a qualidade das competições, tornando-as mais atrativas para o público e para as operadoras de apostas.
- Maior Presença Digital e Mediatização: Aumentar a transmissão de eventos em plataformas online e televisivas, ampliando a exposição da modalidade.
- Parcerias com Casas de Apostas e Influenciadores: Criar programas de incentivo e campanhas de marketing para aumentar o interesse dos apostadores.
- Criação de Novas Modalidades de Aposta: Desenvolver tipos de apostas mais dinâmicos e interativos que possam atrair novos apostadores.
A distribuição do financiamento está diretamente ligada ao volume de apostas registado em cada modalidade. Algumas formas de alteração incluem:
- Ajustes na Grelha de Distribuição: Criar uma percentagem fixa destinada a modalidades menos representadas no mercado de apostas.
- Criação de Critérios de Performance: Estabelecer metas de crescimento para que federações possam aumentar a sua quota de financiamento com base no desempenho e na popularidade das suas competições.
- Maior Transparência e Participação das Federações: Incluir as federações no processo de decisão sobre a distribuição dos fundos, permitindo uma gestão mais democrática e adaptada às suas necessidades.
A redistribuição do financiamento pode ser feita de diversas formas, nomeadamente:
- Revisão da Grelha de Distribuição: Criar uma percentagem fixa destinada a modalidades que não estão atualmente abrangidas pelo mercado de apostas.
- Introdução de uma Taxa de Solidariedade: Implementar um mecanismo onde as modalidades com maior arrecadação contribuam para financiar outras modalidades menos populares.
- Ajuste na Percentagem Destinada a Federações: Avaliar a possibilidade de aumentar a percentagem dos 3% destinados às federações, garantindo maior financiamento ao desporto.
Independentemente do modelo adotado, qualquer alteração deve ser precedida por um estudo aprofundado das reais necessidades das federações e da eficácia da redistribuição dos fundos, garantindo um impacto positivo e sustentável no desenvolvimento desportivo.
Imagens: Federação Portuguesa de Atletismo e Federação Portuguesa de Natação












